No âmbito da Unidade Curricular Educação e Sociedade em rede do Mestrado em Pedagogia do Eleaning o Professor António Moreira Teixeira lançou-nos o desafio de debatermos o tema da HIBRIDIZAÇÃO SOCIAL NO MUNDO PÓS-DIGITAL da qual partilho as minhas reflexões pessoais sobre este tema começando logo pelos vídeos que visualizamos de Salvador Dalí e sua célebre frase: “Se algum dia eu vier a morrer, o que é improvável, espero que as pessoas nos cafés digam que Dalí morreu, embora não totalmente.”
Hoje, esta frase parece-me quase visionária, sobretudo quando penso na forma como o Museu Dalí, em Saint Petersburg (Florida), decidiu “ressuscitar” o artista através de uma instalação interativa construída com tecnologia deepfake. Ao percorrer as salas, deparamo-nos com uma figura digital que conversa com os visitantes, comenta o ambiente e até posa para fotografias. É difícil permanecerem indiferentes: nota-se um certo desconforto, um sentimento que oscila entre o fascínio e a inquietação.
A meu ver, este episódio traduz exemplarmente aquilo que Floridi (2015) descreve como a passagem para o onlife, esse território híbrido onde as fronteiras entre o digital e o físico se tornam cada vez mais permeáveis. O Dalí digital ganha existência própria, cria presença, produz memória e, de forma surpreendente, desperta emoções que não ficam assim tão distantes das que o artista real poderia suscitar.
É precisamente neste entrelaçar de simulação e experiência que surge uma questão incontornável: o que significa ser autêntico num mundo em que a própria realidade se encontra em constante negociação?
1. Autenticidade: Entre o que Somos e o que Aparece
Quando observo a reação dos visitantes perante o Dalí digital, apercebo-me de que a autenticidade já não é aquilo que era. Como Turkle (2011) tem vindo a defender, vivemos numa era em que as representações tecnológicas são tão sofisticadas que passam facilmente por reais — e isso altera profundamente as nossas relações com as imagens, com os outros e connosco próprios.
No mundo pós-digital, parece-me que a autenticidade deixou de ser uma essência estável. É antes algo que acontece no encontro entre a pessoa e a sua imagem. O eu digital é sempre uma construção: uma versão editada, curada, filtrada, que tanto pode aproximar-se do nosso “verdadeiro eu” como afastar-se dele. Boyd (2014) descreve esta dinâmica como uma performance contínua — e, honestamente, penso que todos já sentimos esta pressão de “aparecer” mais coerentes ou mais interessantes online.
O caso de Dalí leva isto ao extremo. Ele é simultaneamente:
– um artista histórico, já desaparecido;
– uma personagem digital que lhe dá nova vida;
– e as interpretações que cada visitante constrói ao encontrá-lo.
E nesta multiplicidade, ecoa a ideia de Baudrillard (1994): vivemos no reino dos simulacros, em que as imagens já não imitam a realidade — criam outra.
2. Quem São os Outros na Rede? E Quem Somos Nós?
A instalação do museu levou-me a pensar noutra questão que se estende muito para lá de Dalí: quem são as pessoas que encontramos online?
Muitas vezes, não sabemos. E talvez o mais desconfortável seja perceber que nós próprios também projetamos versões de nós que nem sempre correspondem exatamente ao que somos.
Goffman (1959), ainda antes da internet, via a vida social como um palco. No digital, esse palco está sempre aceso, sempre em modo de atuação. Cada fotografia, cada comentário, cada perfil é uma máscara — algumas sinceras, outras profundamente encenadas. E isso torna difícil distinguir o que é expressão genuína do que é simplesmente estratégia de visibilidade ou pertença.
Por isso, quando penso no Dalí digital, apercebo-me de que não é apenas ele que nos engana — é toda a lógica de apresentação online que nos mantém numa ambiguidade permanente.
3. Transparência, Verdade e o Problema da Validação
Numa época em que tantas identidades são performativas, a procura pela autenticidade desloca-se para outro campo: o da informação. Mas, como bem mostra Han (2015), a transparência é muitas vezes ilusória. Mais visibilidade não significa mais verdade.
Os fluxos de informação estão profundamente condicionados por algoritmos que não vemos e que raramente compreendemos (O’Neil, 2016). Mesmo quando queremos ser críticos, enfrentamos um sistema que nos apresenta o mundo filtrado. O simples ato de “confiar” torna-se complexo.
Neste cenário, surgem questões que me parecem fundamentais:
-
Quem valida aquilo que circula online?
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Como se autentica uma informação que pode ser replicada, manipulada e amplificada infinitamente?
-
Será a comunidade capaz desse papel?
-
Ou estamos condenados a confiar em sistemas que não controlamos?
Nissenbaum (2010) lembra-nos que a integridade informacional depende de normas contextuais — e não da exposição total. Isto sugere que a transparência absoluta não é apenas insuficiente: pode até ser contraproducente.
4. Confiar em Pessoas ou em Sistemas?
No fundo, a grande mudança que sinto é esta: a confiança deixou de ser apenas interpessoal para se tornar sistémica. Luhmann (1979) explica que a confiança serve para reduzir a complexidade do mundo; no universo digital, essa complexidade é tão imensa que nenhuma pessoa, isoladamente, a pode gerir.
Hoje, confiar significa duas coisas:
-
confiar que a pessoa é quem diz ser;
-
confiar que o sistema que a apresenta é fiável ou seja, que tanto a identidade quanto o contexto tecnológico que a sustenta operam com integridade suficiente para merecer a nossa credibilidade.
Conclusão
No mundo pós-digital, não basta perguntar “quem é o outro?”. É preciso também perguntar:
“como é que eu sei?”,
“quem valida?”,
“em que posso confiar?”.
Mais do que respostas definitivas, acredito que precisamos de uma nova literacia crítica — uma forma de navegar entre o real e o representado sem perder o sentido de responsabilidade e discernimento.
Talvez Dalí estivesse certo: ninguém morre totalmente. Mas, no digital, ninguém é totalmente aquilo que parece.
Referências
Baudrillard, J. (1994). Simulacra and simulation. University of Michigan Press.
boyd, d. (2014). It's complicated: The social lives of networked teens. Yale University Press.
Floridi, L. (2015). The onlife manifesto: Being human in a hyperconnected era. Springer.
Goffman, E. (1959). The presentation of self in everyday life. Anchor Books.
Han, B.-C. (2015). Transparency society. Stanford University Press.
Luhmann, N. (1979). Trust and power. Wiley.
Nissenbaum, H. (2010). Privacy in context: Technology, policy, and the integrity of social life. Stanford University Press.
O’Neil, C. (2016). Weapons of math destruction: How big data increases inequality and threatens democracy. Crown.
Turkle, S. (2011). Alone together: Why we expect more from technology and less from each other. Basic Books.
Imagem criada pelo Gemini
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