No centro desta mudança encontra-se a ideia de "universal sem totalidade": a rede cria um espaço tecnicamente unificado, mas que não é organizado por uma autoridade central nem por uma narrativa homogénea. O digital opera pela multiplicidade, pela abertura e pela coexistência de pontos de vista, configurando um ambiente onde o conhecimento é sempre inacabado, negociado e partilhado.
É neste contexto que Lévy desenvolve o conceito-chave da sua obra, a Inteligência Coletiva. A cibercultura possibilita que saberes dispersos sejam conectados, valorizados e coordenados em tempo real. O conhecimento deixa de ser património exclusivo de especialistas e passa a ser produzido colaborativamente, dando corpo àquilo que o autor sintetiza na frase: “ninguém sabe tudo, mas todos sabem alguma coisa”. Assim, aprender na cibercultura implica participar, contribuir e construir significados em conjunto.
Três exemplos significativos da cibercultura segundo Lévy
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Enciclopédias colaborativas (ex.: Wikipédia)A Wikipédia ilustra claramente a inteligência coletiva: milhares de utilizadores, cada um com conhecimentos limitados mas complementares, produzem e atualizam continuamente um repositório global de saber. O valor da obra resulta da participação distribuída, não da autoridade centralizada.
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Comunidades virtuais de aprendizagem (ex.: MOOCs e fóruns de e-learning)Nestes ambientes, os alunos constroem conhecimento de forma colaborativa, partilhando dúvidas, soluções e recursos. A figura tradicional do “professor detentor do saber” é substituída por uma rede de coaprendizagem, que materializa a interconexão e a inteligência coletiva.
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Criação digital participativa (ex.: software de código aberto)Projetos como o Linux demonstram como a criação técnica pode tornar-se coletiva e descentralizada. Programadores de diferentes países trabalham simultaneamente num mesmo projeto, que evolui como uma obra-processo — uma característica central da cibercultura segundo Lévy.
Cibercultura e o desafio do “segundo dilúvio”
Apesar do seu potencial emancipador, Lévy alerta para o risco do “segundo dilúvio”, a inundação informacional que caracteriza a sociedade contemporânea. A abundância de dados pode confundir, fragmentar e até ameaçar a preservação do património cultural essencial da humanidade. Surge então a questão: será a responsabilidade individual — ou a responsabilidade coletiva — a nova “Arca de Noé” capaz de filtrar, selecionar e salvaguardar o conhecimento que importa?

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