quarta-feira, 8 de julho de 2026

Estado da Arte da Avaliação em eLearning | Atividade 1__Avaliação em Contextos eLearning

                 Ilustração criada com recurso a IA generativa (ChatGPT/DALL·E, OpenAI, 2026).

Diário de Bordo — Atividade 1

 

1. Contextualização

A Atividade 1 desafiou-nos a explorar o estado da arte da avaliação pedagógica em contextos de eLearning, partindo de uma pergunta-base lançada pela professora Lúcia Amante: qual é o estado da arte da avaliação pedagógica em contextos de eLearning e quais são, atualmente, os principais desafios enfrentados?

Optámos por trabalhar com uma ferramenta de IA como ponto de partida, usando a sua resposta não como um fim em si mesma, mas como um objeto de análise — algo a confrontar, problematizar e confirmar (ou não) à luz da literatura científica selecionada. Este registo documenta o processo, as opções tomadas e as aprendizagens retiradas, servindo de atualização ao meu portfólio digital e de exercício de metacognição sobre o meu próprio percurso de aprendizagem.

2. O processo de trabalho

O ponto de partida foi a pergunta lançada à IA, que devolveu duas subquestões orientadoras: uma sobre a viabilidade pedagógica da transição de modelos somativos para modelos formativos e contínuos em turmas de grande dimensão, e outra sobre os desafios éticos e pedagógicos associados ao uso de learning analytics e IA na avaliação online.

A síntese da resposta da IA apontava para uma evolução clara: de uma avaliação sumativa para uma abordagem contínua e formativa, valorizando evidências múltiplas (interações, projetos, portfólios) e práticas participativas como a autoavaliação e a avaliação entre pares. O maior desafio nesta fase do trabalho não foi obter a resposta da IA, mas decidir o que fazer com ela: resistir à tentação de a aceitar como verdade estabelecida e transformá-la, em vez disso, num ponto de partida para uma reflexão crítica sustentada em literatura científica.

3. A reflexão crítica: confrontar a IA com a literatura

Escolhemos dois textos-âncora para este confronto direto com a resposta da IA:

  • Amante, Oliveira e Gomes (2014), sobre avaliação digital nas universidades públicas portuguesas, que ofereceu um quadro edumétrico situado sobre autenticidade e praticabilidade da avaliação;
  • Kickbusch, Ashford-Rowe, Kemp, Boreland e Huijser (2025), Beyond Detection: Redesigning Authentic Assessment in an AI-Mediated World, que trouxe uma perspetiva disruptiva sobre o papel da IA na avaliação.

3.1. Convergências entre a IA e a literatura

A resposta da IA revelou uma forte convergência com a literatura no que toca à mudança de paradigma da avaliação sumativa para a formativa. O modelo de Amante et al. (2014) já apontava para a necessidade de tarefas significativas, ideia que a IA confirmou ao destacar a centralidade do processo de aprendizagem. Esta visão é corroborada por Kickbusch et al. (2025), que defendem que, num mundo mediado por IA, a força avaliativa deve residir em evidências de percurso — portfólios, projetos — e não em testes isolados. A literatura confirmou ainda a importância da avaliação participativa (autoavaliação e avaliação entre pares) e do uso de learning analytics para personalizar o feedback, elementos que a IA identificou como tendências estruturantes. A própria ideia da IA sobre o "professor como designer" de avaliação encontrou eco direto na dimensão da autenticidade de Amante et al. (2014), em que o docente é entendido como o arquiteto de contextos que ligam a academia ao mundo real.

3.2. Limitações e simplificações da resposta da IA

Foi, no entanto, no confronto com estas limitações que a reflexão crítica mais se aprofundou. Em primeiro lugar, na dimensão da autenticidade e da integridade: enquanto a IA focava a sua resposta na dificuldade de garantir a autoria — uma visão essencialmente defensiva —, Kickbusch et al. (2025) propõem um salto qualitativo que a IA ignorava: o redesenho da própria tarefa de avaliação para que a IA seja uma parceira de co-criação crítica. A resposta da IA simplificava assim o desafio, não percebendo que "avaliar", num contexto mediado por IA, implica também avaliar o julgamento do estudante sobre o output da máquina, e não apenas a autenticidade do produto final.

Em segundo lugar, identificámos que a IA negligenciava a tensão entre praticabilidade e escala. Amante et al. (2014) sublinham o equilíbrio necessário entre o esforço docente e o benefício pedagógico — equilíbrio que a resposta da IA ignorava ao apresentar a automatização como solução facilitadora, sem reconhecer que a avaliação formativa de qualidade exige proximidade pedagógica, o que colide diretamente com a tendência de massificação característica do eLearning.

Por fim, quanto à validade e à ética do uso de dados, a IA tratou estas questões de forma predominantemente técnica, enquanto a literatura as apresenta como dilemas bem mais complexos: como garantir que a "datificação" — a recolha sistemática de logs e interações dos estudantes — não compromete a equidade e a privacidade, e como assegurar que não estamos, na prática, a medir apenas "atividade" em vez de "competência" real. Este ponto revelou-se, para mim, um dos mais importantes de todo o trabalho: a facilidade com que uma resposta tecnicamente correta pode, ainda assim, escamotear o que está eticamente em jogo.

Em síntese, a IA mostrou-se eficaz a mapear o estado da arte da avaliação em eLearning, mas falhou em captar a profundidade ética e política que a avaliação, enquanto ato pedagógico, sempre implica. A literatura de Amante et al. (2014) e Kickbusch et al. (2025) revelou-se indispensável para preencher este vazio, demonstrando que a tecnologia deve servir para potenciar a agência humana, e não para automatizar processos de exclusão.

4. O diálogo com os colegas

A interação no fórum foi um momento particularmente rico deste percurso. Os comentários da Carla Miranda e do Rui Silva ajudaram a validar — e a aprofundar — uma das ideias centrais do trabalho: a de que avaliar em contextos mediados por IA implica sempre avaliar o pensamento crítico e o julgamento do estudante sobre o uso da tecnologia, e não apenas controlar a autoria do produto final.

A Carla acrescentou um ângulo importante, sublinhando que este caminho implica também repensar os próprios critérios de avaliação, deslocando o foco do produto final para os processos de decisão, justificação e validação das escolhas do estudante, sobretudo quando mediadas pela tecnologia — uma ideia que aprofunda exatamente a distinção entre avaliar o produto e avaliar o processo que tínhamos retirado do confronto entre a IA e Kickbusch et al. (2025). O Rui, por sua vez, destacou como muito positiva a forma como explorámos a ideia de que avaliar, num contexto mediado por IA, implicará sempre avaliar o julgamento crítico do aluno sobre o uso da própria tecnologia, reforçando a pertinência da articulação entre a resposta da IA e a literatura selecionada.

Respondi a ambos procurando não apenas agradecer, mas devolver a discussão ao ponto que mais me parecia central: a avaliação como processo formativo, ético e intencional, em que a tecnologia só tem valor pedagógico quando ao serviço da aprendizagem e da reflexão crítica — e não como um fim em si mesma.

5. Feedback recebido e autoavaliação

A análise individual recebida sobre o trabalho foi globalmente muito positiva, destacando:

  • boa compreensão da temática e dos desafios da IA na avaliação;
  • estrutura clara e cumprimento dos elementos solicitados;
  • a reflexão crítica como ponto forte do trabalho, evidenciando capacidade de análise e problematização, sem se limitar a descrever as ideias da IA;
  • uma articulação pertinente com a literatura.

Foram também identificadas áreas de melhoria, que assumo como aprendizagem para as próximas atividades:

  • maior capacidade de condensação na síntese da resposta da IA, tornando-a mais focada e alinhada com os limites propostos;
  • aprofundar ainda mais as implicações pedagógicas de algumas ideias, em vez de as explorar apenas superficialmente;
  • reforçar a articulação com os conceitos mobilizados, com uma exploração mais consistente ao longo de todo o texto, e não apenas nos momentos dedicados à reflexão crítica.

No que toca à minha participação individual no fórum, foi-me reconhecido rigor científico e pertinência nas interpelações aos colegas — nomeadamente ao levantar questões sobre a autenticidade da avaliação em contextos de IA. Foi também identificado, com justiça, que a minha participação foi sobretudo validativa, centrada no reforço do consenso já existente no grupo, e que poderia beneficiar de maior iniciativa crítica e problematização autónoma — ou seja, arriscar mais em levantar dúvidas ou contrapontos, em vez de apenas confirmar e aprofundar o que já estava bem dito.

6. Aprendizagens e próximos passos

Este trabalho consolidou uma ideia que me parece central para todo o mestrado: a avaliação em contextos de eLearning não pode ser pensada como um problema técnico de deteção de fraude ou de automatização de processos. É, acima de tudo, uma questão de intencionalidade pedagógica — decidir o que queremos efetivamente avaliar (o produto ou o processo, a autoria ou o julgamento crítico) antes de decidir como o vamos avaliar. Esta conclusão é sustentada tanto pelo quadro edumétrico de Amante et al. (2014) como pela perspetiva disruptiva de Kickbusch et al. (2025), o que reforça a robustez do argumento construído ao longo de todo o trabalho.

Para a próxima atividade, proponho-me:

  1. Ter mais capacidade de síntese, sem perder rigor;
  2. Assumir posições mais problematizadoras e autónomas no fórum, mesmo quando isso implica discordar ou questionar consensos já estabelecidos no grupo;
  3. Trabalhar a articulação teórica de forma mais integrada ao longo de todo o texto, mobilizando desde cedo os conceitos dos autores de referência, e não apenas no momento da reflexão crítica final.

7. Reflexão final crítica

Chegada ao fim desta primeira atividade, sinto que o maior ganho não foi tanto o conteúdo sobre avaliação em eLearning — que, em grande parte, já intuía a partir da prática — mas sim a forma como aprendi a relacionar-me criticamente com uma resposta de IA. É fácil ler uma síntese bem escrita, coerente e aparentemente completa, e confundir fluência com profundidade. O exercício de a confrontar sistematicamente com Amante et al. (2014) e Kickbusch et al. (2025) obrigou-me a distinguir aquilo que a IA descreve bem (a mudança de paradigma sumativo para formativo, a valorização de evidências de percurso) daquilo que ela simplifica ou evita (a dimensão ética da datificação, a tensão entre escala e proximidade pedagógica, o redesenho da própria tarefa de avaliação). Esta distinção entre descrição precisa e compreensão profunda é, a meu ver, a competência mais transferível que retiro desta atividade — e é também, ironicamente, o próprio objeto de estudo do trabalho: avaliar não é verificar se algo está corretamente descrito, é avaliar a capacidade de julgar o que essa descrição deixa de fora.

Reconheço, contudo, limitações neste percurso. Em primeiro lugar, a nossa reflexão crítica, apesar de sólida, ficou concentrada essencialmente no confronto direto com a resposta da IA, sem explorar tão a fundo como esta discussão se aplicaria a um caso concreto — uma disciplina real, um instrumento de avaliação específico. A crítica manteve-se, em parte, no plano conceptual, quando poderia ter ganho mais força ao ser testada contra um exemplo prático. Em segundo lugar, e revendo o feedback recebido sobre a minha participação no fórum, reconheço que tendi a validar e aprofundar as ideias dos colegas em vez de as questionar. Foi uma escolha talvez confortável — reforçar o consenso do grupo — mas que me deixou pouco à vontade em relação ao papel de problematização que a própria literatura que mobilizámos defende: se Kickbusch et al. (2025) argumentam que avaliar implica julgar criticamente e não apenas validar, seria coerente que eu tivesse aplicado esse mesmo princípio à minha postura no fórum, e não apenas ao conteúdo do trabalho escrito.

Fica também uma questão em aberto que gostaria de levar para as próximas atividades: se, como concluímos, a avaliação mediada por IA exige avaliar o julgamento do estudante sobre o output da máquina, como se operacionaliza isso na prática, sem transformar essa avaliação num exercício igualmente superficial de "mostrar que se pensou criticamente"? Esta é, para mim, a fronteira ainda por explorar entre o discurso sobre avaliação autêntica em contextos de IA e a sua tradução em critérios, tarefas e ins
trumentos concretos — e é também onde sinto que o meu percurso de aprendizagem, e o do grupo, ainda tem um caminho significativo a percorrer.

 

Bibliografia

Amante, L., Oliveira, I., & Gomes, M. J. (2014). Avaliação digital nas universidades públicas portuguesas: perspectivas de professores e de estudantes [Comunicação]. EUTIC 2014, Universidade Nova de Lisboa, Portugal.

Kickbusch, S., Ashford-Rowe, K., Kemp, A., Boreland, J., & Huijser, H. (2025). Beyond detection: Redesigning authentic assessment in an AI-mediated world. Education Sciences, 15(11), 1537. https://doi.org/10.3390/educsci15111537


Link para o Relatório

Disciplina: Avaliação em Contextos de Elearning 

Mestrado em Pedagogia do eLearning Grupo C: Susana Luís e Tânia Santos