O que verdadeiramente me surpreendeu foi perceber a ligação profunda entre tecnologia e pedagogia que o conceito de PLE encerra. Sempre usei as ferramentas digitais de forma intencional e organizada — o Google Calendar e o Google Drive para estruturar o meu tempo e os meus recursos, o Google Scholar e o RCAAP para garantir o rigor das minhas pesquisas, o Word, o PowerPoint e mais recentemente o ChatGPT e o NotebookLM para transformar informação em conhecimento produzido. Mas fazia-o sem consciência plena de que estava, afinal, a construir um ecossistema de aprendizagem pessoal. Mota (2009) descreve o PLE precisamente como um espaço que pertence genuinamente ao aprendente, construído a partir das suas escolhas, necessidades e conexões — e foi com essa leitura que compreendi que as minhas escolhas tecnológicas eram, ao mesmo tempo, escolhas pedagógicas.
O meu PLE organiza-se em torno de cinco dimensões que se alimentam mutuamente:
- Na dimensão da pesquisa, recorro ao Google Scholar, ao RCAAP, ao YouTube e ao Google para explorar fontes diversas e de qualidade, desenvolvendo uma postura crítica face à informação que encontro — o que Zhang et al. (2023) identificam como uma competência de metacognição indispensável na era da infodemia.
- Na dimensão da produção, ferramentas como o Word, o PowerPoint, o Excel, o ChatGPT e o NotebookLM permitem-me transformar o que aprendo em conteúdos concretos, num processo que Downes (2005) associa à passagem do aprendente de consumidor a produtor ativo de conhecimento.
- Na dimensão da organização, o Google Calendar, o Google Drive, o OneDrive e as notas do telemóvel garantem que a aprendizagem não fica dispersa, suportando a autorregulação que Xu et al. (2024) identificam como um dos pilares de qualquer PLE bem integrado. Mas seria desonesto não admitir que, antes de qualquer ferramenta digital, há sempre um caderno e uma caneta à mão. É muitas vezes por aí que tudo começa — num rabisco, numa ideia anotada à pressa, numa lista escrita à mão antes de migrar para o ecrã. Sou da velha guarda em alguns hábitos: há qualquer coisa no gesto de escrever à mão que nenhuma aplicação ainda conseguiu substituir.
- Na dimensão da comunicação, o WhatsApp, o Gmail, o Zoom, o Meet e o Teams mantêm-me ligada a colegas e professores, tornando a aprendizagem um processo partilhado e não solitário.
- E na dimensão da aprendizagem em rede — aquela que este mestrado mais tem contribuído para desenvolver — o Moodle, o Padlet, o Perusall, o Blogue, os Webinars e a Wiki abrem o meu ecossistema ao exterior, concretizando o que Wheeler (2009) designa como learning webs: as teias de conexões sociais e informacionais que dão vida a qualquer ambiente pessoal de aprendizagem.
O que este exercício de reflexão me revelou foi, acima de tudo, que aprender não se limita a contextos formais nem a momentos definidos. É um processo contínuo, distribuído e profundamente pessoal, que acontece na articulação entre as ferramentas que escolhemos, as redes que construímos e a intencionalidade com que gerimos tudo isso. Attwell (2023) defende que é precisamente esta capacidade de integrar aprendizagens formais, informais e não-formais ao longo da vida que torna o PLE um conceito tão estruturante para pensar a educação contemporânea.
O mestrado deu-me os conceitos. As leituras deram-me o enquadramento. Mas o PLE, esse, já era meu — faltava apenas reconhecê-lo!
Referências Bibliográficas
Adell, J. (2010). Qué es un PLE - Personal Learning Environment? Entrevista realizada por Josi Sierra para o projecto e blog CC-Conocity. https://youtu.be/bLs5166hyiU
Attwell, G. (2023). Personal Learning Environments: Looking back and looking forward. Revista de Educación a Distancia (RED), 23(71). https://doi.org/10.6018/red.526911
Downes, S. (2005). E-learning 2.0. eLearn Magazine. http://www.elearnmag.org/subpage.cfm?section=articles&article=29-1
Mota, J. (2009). Personal Learning Environments: Contributos para uma discussão do conceito. Educação, Formação & Tecnologias, 2(2), 5–21. http://eft.educom.pt/index.php/eft/article/view/105/66
Wheeler, S. (2009). It's personal: Learning spaces, learning webs [Apresentação Slideshare]. http://www.slideshare.net/timbuckteeth/its-personal-learning-spaces-learning-webs
Xu, X., Sun, Y., Weng, J., & Zhang, Y. (2024). Theoretical framework of personal learning environments: SPET model. Communications in Computer and Information Science, 1974, 139–156. https://doi.org/10.1007/978-981-99-8255-4_13
Zhang, Y., Xu, X., Zhang, M., Cai, N., & Lei, V. N. L. (2023). Personal Learning Environments and personalized learning in the education field: Challenges and future trends. Em Lecture Notes in Educational Technology (pp. 231–247). Springer. https://doi.org/10.1007/978-981-19-9315-2_13
