domingo, 16 de novembro de 2025

 

A noção de cibercultura apresentada por Pierre Lévy no seu livro Cibercultura (2000) descreve uma transformação profunda nas formas de comunicar, aprender e produzir conhecimento, resultante da difusão das tecnologias digitais e da expansão do ciberespaço. Para Lévy, a cibercultura é o conjunto de técnicas, práticas, valores e modos de pensamento que emergem da interconexão global dos computadores e das pessoas, inaugurando um novo ecossistema cognitivo e social.

No centro desta mudança encontra-se a ideia de "universal sem totalidade": a rede cria um espaço tecnicamente unificado, mas que não é organizado por uma autoridade central nem por uma narrativa homogénea. O digital opera pela multiplicidade, pela abertura e pela coexistência de pontos de vista, configurando um ambiente onde o conhecimento é sempre inacabado, negociado e partilhado.

É neste contexto que Lévy desenvolve o conceito-chave da sua obra, a Inteligência Coletiva. A cibercultura possibilita que saberes dispersos sejam conectados, valorizados e coordenados em tempo real. O conhecimento deixa de ser património exclusivo de especialistas e passa a ser produzido colaborativamente, dando corpo ao que o autor sintetiza na frase: “ninguém sabe tudo, mas todos sabem alguma coisa”. Assim, aprender na cibercultura implica participar, contribuir e construir significados em conjunto.

Três exemplos significativos da cibercultura segundo Lévy

  1. Enciclopédias colaborativas (ex.: Wikipédia)
    A Wikipédia ilustra claramente a inteligência coletiva: milhares de utilizadores, cada um com conhecimentos limitados mas complementares, produzem e atualizam continuamente um repositório global de saber. O valor da obra resulta da participação distribuída, não da autoridade centralizada.

  2. Comunidades virtuais de aprendizagem (ex.: MOOCs e fóruns de e-learning)
    Nestes ambientes, os aprendentes constroem conhecimento de forma colaborativa, partilhando dúvidas, soluções e recursos. A figura tradicional do “professor detentor do saber” é substituída por uma rede de coaprendizagem, que materializa a interconexão e a inteligência coletiva.

  3. Criação digital participativa (ex.: software de código aberto)
    Projetos como o Linux demonstram como a criação técnica pode tornar-se coletiva e descentralizada. Programadores de diferentes países trabalham simultaneamente num mesmo projeto, que evolui como uma obra-processo — uma característica central da cibercultura segundo Lévy.

Cibercultura e o desafio do “segundo dilúvio”

Apesar do seu potencial emancipador, Lévy alerta para o risco do “segundo dilúvio”, a inundação informacional que caracteriza a sociedade contemporânea. A abundância de dados pode confundir, fragmentar e até ameaçar a preservação do património cultural essencial da humanidade. Surge então a questão: será a responsabilidade individual — ou a responsabilidade coletiva — a nova “Arca de Noé” capaz de filtrar, selecionar e salvaguardar o conhecimento que importa?

Do ponto de vista pedagógico, especialmente no âmbito do e-learning, esta questão é central. A literacia digital, a capacidade crítica e a participação ativa tornam-se competências fundamentais para navegar neste mar de informação. Na cibercultura, aprender deixa de ser acumular conteúdos e passa a ser saber orientar-se, colaborar e contribuir para a inteligência coletiva.

Em jeito de conclusão, sinto que a cibercultura, tal como Lévy a descreve, nos convida a olhar para o digital para além das ferramentas que usamos no dia a dia. Trata-se de um verdadeiro novo paradigma cognitivo e social, que muda a forma como nos relacionamos com o conhecimento, com os outros e até connosco próprios. A colaboração, a participação e a construção coletiva deixam de ser apenas ideias bonitas e passam a ser práticas concretas deste novo ecossistema em que vivemos.

Mas, apesar de todo este potencial transformador, percebo também que a cibercultura nos coloca uma grande responsabilidade: a de saber navegar, escolher e cuidar. Num tempo marcado por um autêntico “dilúvio informativo”, cabe-nos — individualmente e enquanto comunidade — filtrar, preservar e dar sentido ao que realmente importa. Só assim conseguiremos proteger e valorizar aquilo que constitui o património cultural essencial da humanidade.


Imagem criada pelo ChatGPT.

Lévy, P. (2000). Cibercultura. Lisboa, Portugal. Piaget